sábado, 17 de novembro de 2007

Como virei executivo ou "Executivo por acidente" (parte 1)

Sou jornalista como os jornalistas costumam se fazerem jornalistas na Argentina: não por portação de diploma, mas por exercício da profissão. Depois de passar dois anos velejando e viajando pelo mundo, na época da vida em que as pessoas costumam fazer faculdade (fiz 18 anos literalmente no meio do Atlántico, correndo a regata Whitbread, que depois virou Volvo Race), e havendo feito dois anos de Ciencias de la Comunicación na Universidad de Buenos Aires, passei, aos 21 anos, a escrever sobre regatas. Tinha facilidade com as palavras e entendia do assunto: andei muito rápido nessa, a minha primeira profissão. Comecei sendo correspondente de algumas revistas e assessor de imprensa do Club Náutico Mar del Plata, mas logo mudei para Buenos Aires e passei a dirigir ou fazer revistas especializadas. Por mais de quatro anos fiz um programa semanal sobre esportes náuticos, dei assessoria a clubes, times de competição, escrevi em jornais e revistas. Boa parte dessa atividade foi baseada na minha própria empresa; micro-empresa: eu e mais duas ou três pessoas -às vezes sócios, às vezes funcionários. Um misto de condições econômicas muito desfavoráveis (eufemismo para falar das duas hiperinflações que devastaram a Argentina no governo Alfonsin, entre 1983 e 1984) e inexperiência ou decisões erradas me colocaram na lona: para pagar as contas de casa, precisei me empregar.

Assim, aos 26 anos, com pouco estudo e muita experiência nas costas, com uma fé inabalável na minha capacidade de fazer coisas e de vencer todo e qualquer desafio, tive meu primeiro emprego: prosecretario de redacción da edição argentina da Playboy. Foram dez meses de emoções intensas e de muita diversão, junto a gente que viraria muito importante na minha vida -bem mais do que poderia imaginar à época. Mas a Argentina estava triste, desiludida pelo fracasso daquele presidente elegido com grandes esperanças e se mostrara, rapidamente, um grande engodo. Economicamente deprimida, socialmente ferida por seis anos de ditadura, a Buenos Aires daquela época traz lembranças melancólicas, de um não-futuro -nada muito diferente do que é hoje, por sinal. Olhava em volta e via gente triste, resignada; escutava os colegas que, com mais de 20 anos de casa, pareciam ter feito sempre a mesma coisa e sabia que não era neles que queria me espelhar. Aquilo não era para mim, isso eu sabia. Conhecia outros mundos, havia experimentado a liberdade e vivido aventuras de verdade: receber um elogio do chefe, ou ganhar o jogo contra o time de gráfica me pareciam satisfações respeitáveis, porém não apetecíveis. Queria mais. Era ambicioso e sonhador: esse querer mais não era somente, ou principalmente, sucesso profissional: o mundo era um lugar enorme para ser descoberto, conquistado, curtido... Sabia que estava chamado grandes coisas (esse sabia deve ser lido, hoje, com um tom de ironia compreensiva: era tão jovem!). Tinha dois filhos e uma esposa com espírito de aventureira, também, e nada para perder. Resolvemos que iriamos morar na Europa. Não era, devo dizer, uma decisão muito original: milhares de argentinos fizeram o mesmo, antes e depois. Faria como eles: me virar para arrumar um emprego, começar do zero, batalhar por meu lugar no mundo.

Começamos a pensar no assunto e eu contei no escritório. Vendemos o carro para comprar as passagens e comecei a escrever cartas para alguns amigos, na Itália e na França. Imaginava que poderia fazer trabalhos ligados aos esportes náuticos, mas qualquer coisa serviria. Iria eu, antes, e depois minha esposa e filhos. Foi quando acontecei uma das, se não a mais, importante mudança de rumo na minha carreira profissional.

Meu chefe à época me convidou para comer pizza. Costumávamos sair juntos e conversar -estava nascendo uma amizade e uma relação profissional que duraria longos e intensos anos.

“Você quer ser correspondente em Paris do Grupo Perfil”, perguntou, e eu ainda tenho a lembrança física do pulo que deram meu coração, estômago, entranhas... “Claro que eu quero”, respondi sem pensar nem perguntar mais. Ele se assustou: era pouco dinheiro, poucas garantias e eu estava com uma família... Era, era pouco dinheiro e as garantias eram menos que poucas, mas era uma oportunidade única eu eu não iria desaproveitar. Quatro meses depois desembarcava em Paris, onde iria passar um dos períodos mais luminosos e ricos da minha vida (aliás, foram muitos os períodos ricos e luminosos... poucos não o foram, devo admitir).

“We'll always have Paris”, diz Rick...não, não é Rick: é Humphrey quem diz, cigarro na boca, numa cena que ficou gravada na memória de muitas gerações. Paris é Paris: ruas, ares, luzes, cores, sons... Estava fazendo o sonho de morar em Paris, somado ao sonho de ser jornalista. Por três anos escrevi uma média de dez matérias por mês. Viajei por toda Europa (eu cobria o continente, desde Paris) e além -Marrocos, Israel, o Líbano. Fiz entrevistas com presidentes, ministros, cientistas, filósofos; estive com o Papa, conheci, entrevistei e fotografei às celebridades (de toda ordem) que aparecem nas capas de revistas: modelos, apresentadoras de TV, atrizes, esportistas, embaixadores. (Era época de Menem: as fronteiras entre as revistas eram mal vigiadas, o que rendia matérias muito coloridas e bastante diversão a jornalistas e fotógrafos). Estive em Croácia na guerra e corri atrás (alcancei!) um dirigente do Hamas, perto da linha de Gaza. Jantei no famoso Hotel de Paris, em Montecarlo, dormi no palácio dos Hermés em Marrakesh, bebi vinhos, comi pratos, participei de encontros e de debates que nunca, na mais ousada das fantasias, poderia ter imaginado. Foram anos felizes, cheios, movimentados... Um período que eu decidi dar por terminado, e fiz bem, num momento alto.

Queria participar do que estava acontecendo na Argentina e que eu, à distância e com mais de esperança do que razão, acreditava ser a fundação de uma sociedade nova. Me sentia 100% jornalista e queria escrever, mexer com as coisas...

Meu trabalho como correspondente era bem valorizado e me foi oferecido um emprego interessante na que era a revista do momento, a que estava no centro do debate político. Aceitei.

Mas... mas a empresa para a qual trabalhava acabara de lançar no Brasil uma revista nova, Caras. Eu tinha participado à distância, contratando correspondente, fazendo acordo com agências e em longas conversas com quem estava à frente da operação -meu antigo chefe da Playboy. Ele me convidou para visitar os escritórios do Rio e de São Paulo

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Traçando a rota

Velejo desde os 16 anos. Navegação oceânica, sobre tudo: atravessei três vezes o Atlântico, percorri as costas da América do Sul da Patagônia ao nordeste do Brasil. Boa parte disso tudo, fiz em solitário, mas também corri regatas, por aqui mesmo e na Europa. Um dos momentos que mais gosto, talvez meu ritual preferido, é quando, numa travessia de vários dias, se marca na carta náutica (o mapa de navegação) a posição. Costuma se fazer ao meio-dia, com uma pequena cruz, um pontinho e um circulo em volta. Da que fora marcada o dia anterior, traça-se uma reta e se mede, com um compasso de pontas secas e a escala na borda da carta, a distância percorrida. Às vezes é uma linha curtinha (pode ser desesperadoramente curta), às vezes um longo traço que mostra uma ótima performance, com vento bom e velas bem abertas. Mas o que é quase mágico é como dia a dia, pontinho a pontinho, vai se formando uma rota, a soma daquelas pequenas retas -e ela nos transporta de um lugar para outro. Na acumulação de horas e de dias ao leme, de ventos que mudam e ondas e correntezas, ao se marcar a estrada na carta, vê-se um caminho que atravessa o mar, que resulta da soma desses instantes todos: das decisões, boas ou más, certas ou erradas; das horas em que o barco parece que voa por sobre a crista das ondas e daquelas outras em que o mundo se transforma numa vasta superfície de óleo e as velas navegar pendem, mortas; das tempestades que nos chacoalham, no castigam e nos fazem prometer que nunca mais poremos pé num veleiro e desses momentos em que, sob a luz branca das estrelas, ou assistindo a uma chuva de meteoritos, ou com a companhia de uma baleia, ou de uma troupe de golfinhos.

É isso que este livro quer fazer: marcar os pontos numa carta de navegação, numa travessia diferente: a que me levou a través desse mito que é o ano sabático: desejo de muitos, realidade de poucos, recomendável nos olhos de quem experimentou. Mas também cheio de desafios e de riscos. Assim, quero contar a história de 12 meses de minha vida, e faço isso com vários objetivos. O primeiro é pessoal: quero compreender melhor, ver a rota traçada, entender melhor de onde sai e para onde fui -ou estou indo. .Quero também expor essa carta, mostrar quais foram os erros e quais os acertos -ou, para ficarmos na linguagem náutica, onde encontrei arrecifes ameaçadores, onde tempestades, e onde bons ventos, águas seguras ou boas para serem navegadas e curtidas. Ou seja, quer ser uma história (e espero conseguir que ela seja de leitura agradável!) e também (um pouco) guia prático. “A experiência é um pente que ganhamos quando ficamos carecas”, falava um filósofo peso-pesado: Oscar Ringo Bonavena (lutador de boxe argentino, e uma grande criador de frases célebres). Ou seja: a experiência alheia ser pouco, ou não serve. Mas, talvez, para quem esteja pensando em parar um ano de trabalhar, ou quera deixar a sua profissão e dar uma guinada radical. Para quem começa a fazer contas, pensar caminhos possíveis. Para quem resolveu encarar essa voz que lhe fala ao pé do ouvido: “não estás feliz, o sucesso profissional não é tudo, precisar fazer algo com isso”. Para essas pessoas, talvez, a minha história pode servir. Oxalá!